Entrevista
Entrevista
Entrevista cedida ao estudante de Psicologia João Alves Maciel Neto da Universidade de Juiz de Fora em abril de 2014. As perguntas foram interessantes, por isso disponibilizamos abaixo:
 
1) O que a levou a optar pela linha Junguiana de terapia?
       Resp: Em 1997 tive minha primeira experiência como paciente em um processo psicoterapeutico, e meu psicólogo era junguiano. Senti os benefícios da psicoterapia e da abordagem, e decidi fazer a faculdade de Psicologia. Durante o curso entrei em contato com várias abordagens, mas percebi que existia uma identificação muito grande com as idéias de Jung, principalmente porque ele explorou o universo simbólico e manteve um diálogo com o mundo oriental. 
 
 
2) O que mais lhe chama a atenção dentre os diversos aspectos teóricos propostos por Jung?
       Resp: O que mais me fascina na proposta de Jung é a forma como ele conseguiu amplificar o aspecto universal da psique. O conceito de inconsciente coletivo e arquétipos nos mostra que existe uma conexão entre os seres humanos, mesmo em épocas em que não existia essa facilidade de comunicação entre as diferentes culturas. 
 
 
3) Existe algum ponto da teoria Junguiana que você discorde?
       Resp: Não há nenhum ponto que eu discorde. Acho que Jung fez um aprofundamento admirável e foi extremamente exigente e rigoroso para formular sua teoria. Atualmente percebo que os estudiosos pós-junguianos estão conseguindo atualizar alguns conceitos, como por exemplo, a anima e o animus, o trabalho grupal (e não apenas a individuação), etc.
 
 
4) Em um campo prático, os arquétipos são abordados, de alguma forma, durante a terapia? Se sim, como e quais?
       Sim. Em alguns momentos podemos perceber, por exemplo, que o arquétipo do herói está sendo acionado no cliente. Percebo isso em clientes de todas as idades. Ele pode ser percebido nas imagens do inconsciente, nos sonhos e recursos expressivos (caixa de areia, desenho, argila, atividades lúdicas, etc). Quando este material é identificado, costumo fazer amplificações, ou seja, associo com histórias míticas semelhantes as que o cliente está vivenciando, valorizando os símbolos que apareceram durante o processo. Por exemplo, às vezes os homens chegam angustiados por estarem envolvidos com mulheres que os fazem "perder a cabeça". Muitos deles entram em crise e acabam mergulhando no álcool. Em alguns casos eu conto uma parte da história da Odisséia de Ulisses, em que o herói tem que enfrentar o canto da sereia, senão pode ser seduzido para o fundo do mar e se afogar. É impressionante como estas amplificações acabam sendo úteis para que o cliente compreenda o seu processo. O mesmo se dá com as crianças que elaboram suas angústias identificando-se com alguns contos de fadas. 
 
5) O processo de individuação é um ponto chave na teoria. Como funciona a sua abordagem na prática?
       Resp: Na prática procuro auxiliar meu cliente a Individuar-se conscientizando-o de seu caminho único. A pessoa vai tomando consciência da sua história, da sua personalidade, de seus desejos, de sua vida. Quanto mais o indivíduo se aprofunda em si mesmo, mais ele se fortalece para continuar o seu caminho. 
 
6) Os tipos psicológicos tem alguma influência durante o tratamento? 
       Resp: Durante o processo de auto conhecimento é importante mostrar ao cliente que existem vários tipos de pessoas e personalidades, e que elas podem interagir entre si. Às vezes uma pessoa introvertida sente-se diminuída porque não consegue ser igual ao seu irmão que é extrovertido. Tento mostrar os benefícios em respeitar cada tipo psicológico. Os tipos intuitivos, por exemplo, geralmente trazem sonhos com mais freqüência; já os do tipo pensamento acabam muitas vezes sendo mais resistentes a participar de atividades lúdicas/expressivas, racionalizando o processo. 
 
 
7) Como o inconsciente coletivo pode ser abordado durante o tratamento?
       Resp: Assim como na questão 4 dos arquétipos, o inconsciente coletivo pode ser abordado no sentido de amplificar o processo psicoterapeutico. O que eu acho interessante é que quanto mais nos aprofundamos em nós mesmos, mais entramos em contato com o inconsciente coletivo, e consequentemente vamos tendo mais consciência do coletivo/humanidade. 
 
8) Um dos pontos mais criticados da obra Junguiana é a paranormalidade (telecinesia, combustão espontânea, sincronicidade, visão áurica) . Como você vê este ponto, de forma geral?
       Resp: Jung queria apenas estudar esses fenômenos. O fato é que eles realmente acabam surpreendendo as pessoas. A Sincronicidade, por exemplo, é um fenômeno muito comum e os clientes trazem conteúdos desta natureza constantemente no consultório. O perigo é quando estes fenômenos são vistos como "mágicos/místicos", pois desta forma podem ser direcionados a contextos fora da realidade, e a pessoa pode se perder. A Sincronicidade pode auxiliar o cliente em alguns momentos para reafirmar uma idéia/caminho, e isso acontece desde os primórdios de nossa existência. Na história da humanidade temos conhecimento do quanto os oráculos antigos acabaram influenciando no destino de cidades e pessoas. Lembro-me do Prof. Antônio Maspoli (psicólogo junguiano) dizer em um Congresso a seguinte frase: "ao psicólogo não cabe descobrir se o duende existe ou não, mas sim, analisar como a crença em duendes afeta o comportamento humano". E creio que Jung também tinha interesse apenas em estudar estas influências na psique humana.
 
 
9) A interpretação dos sonhos pode ser considerada um ponto chave no tratamento?
       Resp: Sim. O trabalho com os sonhos são importantíssimos para o processo. Eles mostram um caminho, organizam a psique, identificam aspectos da sombra e as possibilidades de transformação. Mas as vezes o cliente tem dificuldade de sonhar/lembrar dos sonhos, e nestes casos acabo explorando os símbolos através de recursos expressivos como desenhos, argila, caixa de areia, etc. De qualquer forma o universo simbólico é o instrumento mais valioso desta abordagem. 
 
 
10) Qual a principal diferença, para você, do método de tratamento da psicologia analítica em relação aos outros métodos de tratamento psicoterapêuticos?
         Resp: Creio que não é por acaso que a Psicologia Junguiana também é conhecida como Psicologia Profunda. O que percebo nesta abordagem é que o processo de individuação acaba despertando o cliente para novas formas de olhar-se. Os símbolos acabam conduzindo-os a partes profundas da psique, fornecendo respostas únicas para cada processo. Apesar da densa teoria formulada por Jung, ele se preocupava em não intelectualizar sua proposta. 
O que percebo comparativamente do pouco que conheço sobre a Psicologia Cognitiva Comportamental ou Behaviorista, por exemplo, é que eles focam na eliminação do sintoma. Por isso a Medicina Tradicional se identifica tanto com esta abordagem. Já os junguianos vêem o sintoma como um símbolo, e assim usa este aspecto como base para aprofundar e transformar a doença. A depressão torna-se, por exemplo, uma oportunidade de olhar-se, de analisar os aspectos da vida que precisam ser reavaliados, e não apenas uma doença que precisa ser medicada/exterminada. Mas de qualquer forma o fato de existirem tantas abordagens na Psicologia mostra que existem várias formas de ver estes seres humanos complexos e diferentes. Cada abordagem têm o seu valor, e eu teria que ser uma profunda conhecedora de todas as teorias para conseguir compará-las com a Junguiana. 
 
Sandra Midori Kuwahara Sasaki
Psicóloga
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